Conectivos para redação: como usar sem virar lista decorada
Conectivo bom não é o mais bonito, é o que respeita a relação lógica entre as frases; usar errado muda o sentido do argumento, não só a fluência.
- Conectivo existe para marcar uma relação lógica (causa, oposição, adição), não para "enfeitar" a frase.
- Trocar "portanto" por "contudo" no lugar errado muda o sentido do argumento, não só o estilo.
- Repetir o mesmo conectivo em parágrafos seguidos pesa na Competência 4 mais do que usar poucos conectivos bem escolhidos.
Isso entra na avaliação da redação do Enem dentro da Competência 4, que avalia coesão, segundo material do próprio Inep, e vale para qualquer texto dissertativo-argumentativo, inclusive redação de concurso. A grade completa das cinco competências está em competências da redação do Enem; aqui o foco é só na costura entre frases e parágrafos.
Por que decorar lista de conectivos não resolve
Quem decora uma lista de conectivos "bonitos" (contudo, ademais, outrossim, destarte) e tenta encaixar um por parágrafo costuma produzir texto artificial, porque o conectivo aparece sem checar se a relação lógica é aquela mesmo. O avaliador nota rápido quando o conectivo está ali só para parecer formal. Eu prefiro treinar com um grupo pequeno de conectivos que você entende de verdade e ampliar aos poucos, do que memorizar quarenta opções e usar errado a maioria.
Os grupos de conectivo e o que cada um promete
Cada grupo de conectivo cria uma expectativa no leitor sobre a frase que vem depois. Errar o grupo é prometer uma coisa e entregar outra.
| Relação | Conectivos comuns | O que a frase seguinte precisa trazer |
|---|---|---|
| Causa | porque, já que, uma vez que, visto que | O motivo do que foi dito antes |
| Consequência | portanto, logo, por isso, consequentemente | O efeito ou conclusão do que foi dito antes |
| Oposição | porém, contudo, entretanto, no entanto | Uma ideia que contrasta ou limita a anterior |
| Adição | além disso, ademais, também, e | Mais um elemento que soma à mesma linha de raciocínio |
| Conclusão | assim, dessa forma, por conseguinte | O fechamento do raciocínio construído nas frases anteriores |
Como o conectivo errado muda o sentido
Compare estas duas versões da mesma ideia: "A escola oferece merenda gratuita, portanto muitas famílias em situação de vulnerabilidade dependem dela para a alimentação das crianças" versus "A escola oferece merenda gratuita, contudo muitas famílias em situação de vulnerabilidade dependem dela para a alimentação das crianças". A primeira usa "portanto" e soa estranha, porque a segunda frase não é consequência lógica da primeira, é outro fato relacionado. A segunda usa "contudo", que promete oposição, mas também não existe contraste ali. A frase certa pede um conectivo de adição ou de consequência mais fraca, como "e por isso" ou simplesmente reescrever a relação: "Como a escola oferece merenda gratuita, muitas famílias em situação de vulnerabilidade passaram a depender dela para a alimentação das crianças." O problema não era o vocabulário, era a relação lógica escolhida.
Conectivo dentro do parágrafo x conectivo entre parágrafos
Dentro do parágrafo, o conectivo liga frases que desenvolvem o mesmo argumento; normalmente pede causa, consequência ou adição. Entre parágrafos, o conectivo assume outra função: ele sinaliza que o texto está mudando de argumento, sem soar como um corte brusco. Frases como "Não menos importante", "Outro fator que agrava esse cenário é" ou "Se por um lado X, por outro Y" fazem essa transição sem repetir sempre "além disso" no início de cada parágrafo novo, erro comum em quem escreve rápido demais.
- Varie o conectivo de abertura de parágrafo; usar "além disso" em três parágrafos seguidos soa mecânico.
- Não empilhe dois conectivos da mesma família na mesma frase ("mas contudo", "e também além disso").
- Revise se o conectivo de oposição está mesmo introduzindo um contraste, não só uma informação nova.
- Se a frase funciona sem nenhum conectivo, ela provavelmente não precisa de um; forçar conectivo em toda frase deixa o texto pesado.
Conectivo na introdução e na proposta de intervenção
Na introdução, o conectivo mais usado costuma ser de consequência, ligando o contexto à tese: veja mais sobre isso em como escrever a introdução da redação. Na proposta de intervenção, os conectivos de finalidade ("para que", "a fim de", "com o objetivo de") aparecem naturalmente porque essa parte do texto liga ação a resultado esperado; é o único trecho onde vale a pena repetir esse tipo de conectivo mais de uma vez, porque a estrutura pede.
Ao revisar o texto, confira os conectivos
Perguntas frequentes
Quantos conectivos diferentes preciso usar na redação?
Posso começar frase com "e" ou "mas"?
"Ou seja" é um bom conectivo para redação?
Existe conectivo proibido na redação do Enem?
Coesão não é só conectivo: retomada de palavra também conta
Um erro comum é focar só no conectivo e esquecer a outra metade da coesão: como o texto retoma um termo já usado. Repetir a mesma palavra várias vezes ("a educação", "a educação", "a educação") pesa contra o texto tanto quanto um conectivo errado. O recurso mais simples é o sinônimo parcial ou a referência indireta: depois de mencionar "a evasão escolar", a frase seguinte pode retomar com "esse fenômeno", "esse cenário" ou "esse problema", sem precisar repetir os mesmos dois substantivos. Pronomes ("ela", "isso", "tal medida") também retomam ideias anteriores e evitam repetição, desde que fique claro a que eles se referem; pronome sem referência clara confunde o leitor tanto quanto conectivo mal escolhido.
Pegue um texto que você já escreveu e sublinhe todos os conectivos. Para cada um, pergunte se a frase depois dele cumpre a promessa da relação lógica; se não cumprir, o problema não é trocar o conectivo, é reescrever a frase. Faça esse exercício em três textos antigos antes de escrever o próximo, e a costura entre parágrafos melhora mais rápido do que memorizando lista nova.
Marcelo Moreira
Fundador do GaussEdu. Escreve sobre método de estudo, rotina e preparação para o ENEM, vestibulares, escolas militares e concursos públicos.