Como fazer a introdução da redação sem enrolar
A introdução da redação precisa contextualizar o tema em uma ou duas frases e terminar com uma tese clara que anuncie os dois argumentos do desenvolvimento.
- A introdução tem duas partes: contextualizar o tema em uma ou duas frases e fechar com uma tese que já anuncia os argumentos.
- Contextualização não é repetir o comando da prova com outras palavras; é situar o problema antes de opinar sobre ele.
- Uma tese vaga ("é um problema grave") custa pontos na Competência 3 porque não dá ao leitor o que esperar do texto.
Isso vale tanto para o Enem quanto para a maioria das provas de redação de vestibular e concurso que pedem texto dissertativo-argumentativo. A estrutura completa do texto, incluindo desenvolvimento e conclusão, está em estrutura da redação dissertativa-argumentativa; aqui o foco é só no primeiro parágrafo, que decide como o avaliador lê o resto.
Contextualização: situar o tema sem repetir o comando
Contextualizar não é reescrever a frase-tema da prova com sinônimos. É trazer um fato, um dado ou uma referência histórica que situe o problema antes de você opinar sobre ele. Um jeito simples: comece de um ponto mais amplo que o tema (um contexto histórico, um princípio, um dado) e vá estreitando até chegar exatamente no recorte da proposta.
- Contexto histórico: cite um marco ou período que ajuda a entender por que o problema existe hoje.
- Contexto de direito ou princípio: mencione um direito previsto (na Constituição, numa lei, num tratado) que o problema do tema contraria na prática.
- Contexto de repertório: uma referência cultural ou de área de estudo que introduz o assunto sem repetir o enunciado.
Como escrever uma tese que não seja vaga
A tese é a frase final da introdução, e ela precisa fazer duas coisas: dizer sua posição sobre o problema e, de preferência, indicar por quais ângulos você vai defendê-la. "A desigualdade no acesso à saúde mental é um problema grave no Brasil" não é tese, é constatação; qualquer pessoa concorda e nada foi dito sobre o que o texto vai argumentar. Uma tese funcional aponta causa ou consequência: "A desigualdade no acesso à saúde mental no Brasil se sustenta pela falta de profissionais no interior e pelo estigma que ainda associa transtorno mental a fraqueza pessoal." Essa frase já entrega ao leitor os dois parágrafos de desenvolvimento que vêm a seguir. O material de apoio do Inep sobre a Competência 3 chama isso de projeto de texto: a partir do nível 2 da escala, a redação já precisa mostrar que sabe onde quer chegar desde a introdução.
Dois modelos de abertura que funcionam
Não existe fórmula única, mas dois modelos cobrem a maioria dos temas de redação argumentativa e evitam a introdução genérica.
| Modelo | Como monta | Quando usar |
|---|---|---|
| Do geral para o específico | Frase de contexto amplo (histórico, direito ou dado) + frase que estreita para o recorte exato do tema + tese | Temas sobre direitos, cidadania e desigualdade, onde há um marco histórico ou legal claro |
| Repertório de abertura | Referência cultural, literária ou de área de estudo relacionada ao tema + frase que conecta ao problema + tese | Temas mais abstratos ou comportamentais, onde não há um marco histórico óbvio |
Exemplo comentado, frase por frase
Imagine o tema "desafios do uso de dados pessoais no ambiente digital". Uma introdução no modelo do geral para o específico poderia ser: "A ideia de privacidade nasceu num mundo sem redes sociais, quando os dados de uma pessoa se limitavam a documentos físicos guardados por instituições específicas. Hoje, cada interação online gera informação armazenada e usada por empresas para prever comportamento, muitas vezes sem que o usuário saiba com clareza o que foi coletado. Esse descompasso entre a velocidade da coleta de dados e a lentidão da regulação e da educação digital explica por que o controle sobre a própria informação pessoal se tornou um desafio no Brasil."
Note a função de cada frase: a primeira contextualiza (antes x agora), a segunda descreve o problema atual, a terceira é a tese e já anuncia dois ângulos, descompasso regulatório e falta de educação digital, que se tornam os dois parágrafos de desenvolvimento. Isso não é o único jeito certo de abrir esse tema, mas mostra a lógica: cada frase empurra a seguinte.
Erros que travam a introdução
- Abrir com uma pergunta retórica ("Será que a sociedade está preparada?") em vez de uma afirmação; a banca não pontua pergunta como tese.
- Repetir o enunciado da prova quase palavra por palavra na contextualização.
- Fechar a introdução sem tese, deixando a opinião só implícita.
- Prometer três ou quatro argumentos na tese e desenvolver só um; a introdução precisa combinar com o que vem depois.
Antes de seguir para o desenvolvimento, confira a introdução
Repertório sociocultural também entra na contextualização com frequência, mas só some pontos se estiver ligado ao argumento, não jogado de forma solta; o critério completo está em repertório sociocultural: como montar e usar na redação. Depois de fechar a tese, o próximo parágrafo já entra direto no primeiro argumento, sem outra frase de transição genérica.
Perguntas frequentes
Quantas linhas deve ter a introdução da redação?
A tese precisa vir sempre na última frase da introdução?
Posso começar a redação com uma citação de autor?
O que fazer se não sei nenhum repertório para abrir o tema?
A frase de transição para o primeiro parágrafo
A última frase da introdução não precisa de um conectivo chamativo para emendar no desenvolvimento; um bom encadeamento de ideias já basta. Se você trava nessa costura entre parágrafos, vale revisar o uso de conectivos para redação antes de treinar a introdução inteira, porque boa parte da sensação de "texto engessado" vem do conectivo errado logo na virada de parágrafo.
Treine a introdução separada do resto do texto: pegue cinco temas antigos, escreva só a contextualização e a tese de cada um, sem seguir para o desenvolvimento, e leia em voz alta. Se a tese não deixa claro o que vem a seguir, reescreva antes de partir para o texto completo.
Marcelo Moreira
Fundador do GaussEdu. Escreve sobre método de estudo, rotina e preparação para o ENEM, vestibulares, escolas militares e concursos públicos.